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Ser gay é um grande desafio
 
Terça, 05 de Maio de 2009  
 

Vou contar uma história pessoal extremamente complexa. Durante minha adolescência, fui obrigado a deixar a casa dos meus pais e ir morar com meus tios em outra cidade para poder continuar a estudar. Ao contrário dos meus admiráveis pais, minha ignorante família sempre viu minha esmerada educação, minha suscetibilidade artística e meu domínio das palavras como um signo claro de “viadagem”, na pior acepção que expressão possa ter. Naquilo que deveria ser o seio de uma família, algumas de minhas grandes qualidades tornaram-se um perigo real e imediato. Eu me tornei um tumor maligno que precisava ser extirpado e tratado.

Nesse período, aproveitando o fato de eu estar longe dos meus pais, meus tios me obrigavam a executar uma série de comandos diários com o objetivo de me “curar” ou me “salvar” de uma possível vida gay. Eu tinha de acordar às quatro da madrugada e correr cerca de cinco quilômetros para fortalecer a musculatura das pernas e das nádegas e evitar qualquer possibilidade de rebolado; logo depois tinha de cuidar de uma extensa plantação de verduras e legumes e, assim, engrossar e calejar minhas mãos, desaparecendo com qualquer vestígio de sensibilidade a quem me dirigisse um cumprimento; só então eu poderia tomar um banho de água gelada e seguir para a escola.

Estava terminantemente proibido qualquer atividade extraclasse ou que demandasse processos de socialização após o horário das aulas. Quando chegava em casa, mal terminava o almoço e tarefas braçais diversas me aguardavam, como capinar, cavar, plantar, juntar esterco no curral e rachar lenhas. A ideia era robustecer meus braços, coibindo qualquer excesso gestual. Além disso, eu teria de fazer exercícios de voz para falar mais grosso e estavam abolidos quaisquer superlativos ou termos considerados grandiloquentes. Roupas coloridas ou um pouco mais justas, sapatos ou tênis mais transados e até mesmo bons cortes de cabelo deveriam passar bem longe dos meus sonhos.

Para completar essa boçal receita de “salvação” dos meus tios, eu jamais poderia revelar aos meus pais que estava sendo submetido a essas torturas diárias, sob pena de todo tipo de surras e violências. Apenas para ilustrar a gravidade da situação, quando num determinado dia tentei relatar os fatos à minha Mãe, fui impedido e, graças à uma árdua negociação, escapei por um triz de tomar uma sova de chicote. O mesmo aconteceu quando vivi meu primeiro amor de juventude e uma de minhas cartas foi descoberta: nas mãos da ignorância estava uma mangueira automotiva de combustível, dobrada e retorcida.

Meus pais só vieram a saber de todo esse deprimente contexto anos mais tarde, quando, finalmente, voltei a morar com eles. De todas as difíceis conversas que se sucederam, a mais importante fora travada com minha Mãe e até hoje me emociono ao lembrar de suas doces palavras me consolando e advertindo para eu extraísse dessa danosa experiência as mais sensatas lições e de que me orgulhasse por não ter abandonado nenhum dos meus princípios mesmo diante de tantas adversidades. Tenho certeza de que, para ela, minhas escolhas também não foram de fácil digestão, mas na sua casa a primeiras palavras sempre foram o casamento entre a liberdade, a dignidade e o respeito. Essa sim é uma lição da qual jamais me esquecerei e pela qual serei eternamente grato. Essa é a minha noção de Amor.

Nesse sentido, penso nos milhares de lares onde jovens e adultos são expostos aos dogmas e à falta de esclarecimento de suas famílias. Na maioria das vezes, esses fundamentalismos são a justificativa para irremediáveis violências físicas e psicológicas. Torturas quase medievais são imputadas em nome de uma “salvação” e verdadeiros pecados inomináveis são cometidos em nome de uma errônea ideia do que seja Deus. A vergonha, a humilhação e o desrespeito substituíram a fogueira, a forca e a guilhotina do passado. Lamentavelmente ainda há aqueles que preferem ver seus filhos mortos a vê-los felizes e respeitados em suas escolhas. E eu pergunto: isso é Amor?

Numa compreensão mais ampla, essa cultura da ignorância e da ausência absoluta de deferência com o próximo em sua individualidade tem a mesma origem da cultura que chancela a eleição de políticos medíocres, rendem uma popularidade torta a governos ineptos e corruptos e vestem a toga nebulosa da Justiça brasileira. No berço do atraso, repousa a grande maioria de nossas mazelas. Ou extirpamos de nossas casas, de nossas cercanias, qualquer tipo de preconceitos e “pré-conceitos”, ou fatalmente não conseguiremos dar os próximos passos de necessária evolução social.

Façamos, pois, uma reflexão profunda sobre que tipo de sociedade estamos construindo e que legado deixaremos às próximas gerações. No passado, a androginia assustava. Já evoluímos um bom pedaço. Mas hoje, o grande medo está justamente na paradoxal semelhança e proximidade que a diversidade é capaz de construir. Não podemos mais agredir os fatos e o melhor caminho será sempre a verdade. E nesse caso, é premente no Brasil que comecemos as respeitar direitos primários de um cidadão, quais sejam: a igualdade de todos perante a Lei, o respeito às individualidades, o fim da impunidade e o acesso total, irrestrito e, sobretudo, garantido ao conhecimento. Precisamos dar esse passo adiante e enterrar de vez a ignorância que nos assola e nos corrompe.

Sim, eu sou gay. Com pernas fortes, braços robustos e mãos calejadas, tornei-me o homem que sempre desejei ser e estou edificando dignamente o meu inabalável mundo de conhecimento e dedicação ao meu País. Ser homossexual não é apenas uma questão de opção, orientação ou genética. Ser homossexual é a difícil arte de viver e amar aos olhos das diferenças apesar de toda semelhança. Ser gay é um verdadeiro desafio de vida. É o grande desafio. Obrigado Mãe, por me ensinar e ajudar a vive-lo e vence-lo. Feliz Dia das Mães!


HELDER CALDEIRA
Articulista Político – Rio de Janeiro/RJ
heldercaldeira@folha.com.br


 
 
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