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Conquista terá centro de tecnologia da cachaça
 
Terça, 04 de Agosto de 2009  
 
A indicação da unidade tecnológica para oferecer suporte e assessoramento aos produtores, especialmente do sudoeste, ficou definida na última reunião do dia 28, nas instalações do Infet


Desde a década de 90 que os produtores de cachaça da Bahia vêm lutando contra todos os obstáculos para melhorar a qualidade do produto e ampliar os mercados, inclusive no exterior. Depois de muitos debates e reuniões com entidades, técnicos e órgãos do governo, a proposta de criação do primeiro Centro de Tecnologia e Negócios de Derivados de Cachaça da Bahia deverá ser concretizada até o final do ano com sede em Vitória da Conquista.

A indicação da unidade tecnológica para oferecer suporte e assessoramento aos produtores, especialmente do sudoeste, ficou definida na última reunião do dia 28, nas instalações do Infet/Conquista (antigo Cefet), entre os segmentos interessados, representantes do Sebrae, do IEL (Instituto Euvaldo Lodi da Federação das Indústrias), do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado.

Dentro do projeto "Produzir" da Secretaria de Ciência e Tecnologia, os parceiros discutiram detalhes e procedimentos do programa para implantação do novo centro que irá passar informações e conhecimentos necessários para que os produtores possam melhorar a qualidade da cachaça através da aprendizagem de novas técnicas de industrialização. A área comercial, visando a conquista de novos mercados, também será reforçada a partir da unidade que irá funcionar nas dependências do Infet/Conquista.

Trata-se de uma unidade de difusão e conhecimento de derivados de cachaça para todo Estado – explicou o representante da Secretaria de Ciência e Tecnologia, Djalma Barbosa. A localização do centro recaiu em Conquista pelo seu potencial econômico como rede de distribuição, contando ainda com a vantagem de ser um pólo de desenvolvimento da região sudoeste onde está concentrada grande parte da produção de cachaça do Estado, conforme análise dos técnicos e produtores.

Na verdade, o centro vai envolver todos os derivados da cana-de-açúcar, como a cachaça, rapadura e outros produtos, e contará com uma gestão executiva para coordenar os trabalhos de acompanhamento dos produtores no processo de industrialização e incremento de seus negócios. A ideia do centro é justamente a de criar condições para o crescimento do setor que vem encontrando uma série de dificuldades, como a obtenção do selo de qualidade e a concorrência desleal por parte dos clandestinos com o comércio ilegal da cachaça.

De início, de acordo com Júlio Chompanis, coordenador do Programa de Desenvolvimento das Atividades Empresariais do BID, o centro irá beneficiar um universo de 300 produtores formalizados e informais do sudoeste, abrangendo as regiões de Abaira (Jussiape, Piatã e Mucugê), Caetité e Caculé, Rio de Contas e Livramento de Nossa Senhora, Piripá no Vale do Rio Gavião e Itarantim.

Os últimos detalhes para instalação do centro serão debatidos numa próxima reunião, mas ficou decido que a unidade começará a funcionar ainda neste ano. A aquisição de equipamentos para o projeto será feita pelos parceiros, mas depois o centro, que terá um executivo representante, será mantido pelas associações e cooperativas.

Impostos e concorrência

As maiores dificuldades, mesmo com todas as estratégias mercadológicas montadas pelos produtores e parceiros envolvidos com a fabricação de cachaça, têm sido a alta tributação do IPI (mais de 80%) e a pesada concorrência da indústria de outros destilados, como vinhos, uísques e fermentados. A própria Cachaça Industrial ou de Coluna paga menos impostos e apresenta preços mais baixos de seus produtos.

A saída recomendada por Paulo Mesquita, do Sebrae/Bahia, para esses entraves é a participação cada vez mais intensa em feiras e eventos, bem como ações promocionais de campanhas e divulgação na área de marketing que gerem novos negócios.

De acordo com levantamentos, o volume de produção na Bahia é superior a cinco milhões de litros por ano (no Brasil cerca de 1,3 bilhão de litros), mas somente 350 a 500 mil litros no Estado são de alambiques legalizados. A cachaça de qualidade enfrenta a competitividade do produto clandestino e o preconceito do público consumidor que prefere a vodka e o uísque.

Além do mercado interno que absorve a maior parte da produção, uma das saídas é a conquista do comércio exterior. Nessa área a cachaça de Abaira já deu o primeiro passo com a venda, em março do ano passado, de um lote de 21 mil garrafas para a Itália. Existe a expectativa de mais 80 mil litros para o mesmo país neste ano de 2009 como informou Nelson Luz Pereira, membro da Coopama (Cooperativa dos Produtores Associados de Cana e seus Derivados da Microrregião de Abaira) e chefe do escritório local da EBDA). Também, participa do comércio exterior, a cachaça “Serra das Almas”, em Rio de Contas.

Há quatro anos no mercado, a cachaça “Engenho Bahia”, no município de Ibirataia (Extremo Sul), foi a primeira a receber a marca do Inmetro (no Brasil só existem 28 com essa marca) e apenas os estados do Rio Grande do Sul, Pernambuco, Minas Gerais, São Paulo e Bahia têm essa certificação.

Tanto Josafar Rebouças, diretor de Vendas da “Engenho Bahia” como o produtor Nelson Luz, de Abaira, afirmam que, apesar dos problemas, a cachaça tem crescido nos mercados interno e externo, bem como melhorado sua participação em feiras e eventos, como na Feira Coopmac-Sebrae no início do ano, em Conquista.

Além da questão da tributação, Nelson se queixa da burocratização para a Cooperativa de Abaira conseguir o selo, “mesmo com o cumprimento de todas as normas trabalhistas e da legislação”. De acordo com Nelson Luz, a região de Abaira produz hoje cerca de 150 mil litros por ano de cachaça engarrafada que é vendida pela Cooperativa a R$10,00 por unidade. A entidade vai produzir também o açúcar mascavo, o cristal e outros derivados.

Em Rio de Contas funcionam dois alambiques, a Tombad’ Ouro e Serra das Almas. Só a Tombad’Ouro produz 10 mil litros por ano que são destinados ao mercado interno. Mas, o produtor da unidade, Luis Carlos Farias garante que o sonho é conquistar o mercado externo.

Outras marcas que estão lutando pelo mercado são a Matinha (Piripá) e a Taquaril (Licínio de Almeida) da Coodecana (Cooperativa de Produtores de Derivados de Cana do Vale do Rio Gavião). Segundo o presidente da entidade, Jurandir Costa Viana, as duas fábricas produzem por ano cerca de 180 mil litros.

O Brasil possui cerca de 40 mil produtores de cachaça, sendo que mil fazem a chamada aguardente, ou a cachaça industrial. Os demais são produtores de cachaça de alambique, segundo a Federação Nacional de Produtores de Cachaça de Alambique.

A informalidade no país é estimada em mais de 90%. Na Bahia, o segundo Estado maior produtor depois de Minas Gerais, esse índice não é diferente. Existem no Estado cerca de sete mil pontos de produção, sendo 40 formais e apenas 15 de excelência. O imposto da cachaça no Brasil é definido pelo valor do produto no mercado. Uma boa cachaça chega ao ponto de venda pagando até 83% em tributos. O produtor, então, que faz uma bebida com maior valor agregado, acaba pagando três vezes mais de imposto que a indústria.


Jeremias Macário / Agência Sebrae


 
 
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